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    Usando o Kismet

    by linuxdicas (02/12/2007 - 17:17)

    Usando o Kismet

    Colaboração: Carlos E. Morimoto

    O Kismet é uma ferramenta poderosa, que pode ser usado tanto para checar a segurança de sua própria rede wireless, quanto para checar a presença de outras redes próximas e assim descobrir os canais que estão mais congestionados (configurando sua rede para usar um que esteja livre) ou até mesmo invadir redes. O Kismet em sí não impõe restrições ao que você pode fazer. Assim como qualquer outra ferramenta, ele pode ser usado de forma produtiva ou destrutiva, de acordo com a índole de quem usa.

    A página do projeto é a: http://www.kismetwireless.net/.

    A principal característica do Kismet é que ele é uma ferramenta passiva. Ao ser ativado, ele coloca a placa wireless em modo de monitoramento (rfmon) e passa a escutar todos os sinais que cheguem até sua antena. Mesmo pontos de acesso configurados para não divulgar o ESSID ou com a encriptação ativa são detectados.

    Como ele não transmite pacotes, apenas escuta as transmissões, todo o processo é feito sem prejudicar as redes vizinhas e de forma praticamente indetectável. A principal limitação é que, enquanto está em modo de monitoramento, a placa não pode ser usada para outros fins. Para conectar-se a uma rede, você precisa primeiro parar a varredura.

    Esta questão da detecção dos pontos de acesso com o ESSID desativado é interessante. Não é possível detectá-los diretamente, pois eles não respondem a pacotes de broadcast (por isso eles não são detectados por programas como o Netstumbler), mas o Kismet é capaz de detectá-los quando um cliente qualquer se associa a eles, pois o ESSID da rede é transmitido de forma não encriptada durante o processo de associação do cliente.

    A partir daí, o Kismet passa a capturar todos os pacotes transmitidos. Caso a rede esteja encriptada, é possível descobrir a chave de encriptação usando o aircrack (que veremos a seguir), permitindo tanto escutar as conexões, quanto ingressar na rede.

    Como o Kismet é uma das ferramentas mais usadas pelos crackers, é sempre interessante usá-lo para verificar a segurança da sua própria rede. Tente agir como algum vizinho obstinado agiria, capturando os pacotes ao longo de alguns dias. Verifique a distância de onde consegue pegar o sinal de sua rede e quais informações consegue descobrir. Depois, procure meios de reforçar a segurança da rede e anular o ataque.

    Por ser uma ferramenta popular, ele está disponível na maioria as distribuições. Algumas, como o Knoppix (a partir da versão 3.7), já o trazem instalado por padrão.

    Nas distribuições derivadas do Debian, você pode instalá-lo via apt-get:

     # apt-get install kismet 

     

    Antes de ser usar, é preciso configurar o arquivo "/etc/kismet/kismet.conf", especificando a placa wireless e o driver usado por ela, substituindo a linha:

     source=none,none,addme 

     

    Por algo como:

     source=madwifi_ag,ath0,atheros 

     

    ... onde o "madwifi_ag" é o driver usado pela placa (que você pode verificar usando o comando lspci). Na documentação do Kismet o driver é chamado de "capture source", pois é a partir dele que o Kismet obtém os pacotes recebidos.

    o "ath0" é a interface (que você vê através do comando ifconfig) e o "atheros" é um apelido para a placa (que você escolhe), com o qual ela será identificada dentro da tela de varredura.

    Isto é necessário, pois o Kismet precisa de acesso de baixo nível ao hardware. Isto faz com que a compatibilidade esteja longe de ser perfeita. Diversas placas não funcionam em conjunto com o Kismet, com destaque para as placas que não possuem drivers nativos e precisam ser configurados através do ndiswrapper. Se você pretende usar o Kismet, o ideal é pesquisar antes de comprar a placa. Naturalmente, para que possa ser usada no Kismet, a placa precisa ter sido detectada pelo sistema, com a ativação dos módulos de Kernel necessários. Por isso, prefira sempre usar uma distribuição recente, que traga um conjunto atualizado de drivers. O Kurumin e o Kanotix estão entre os melhores neste caso, pois trazem muitos drivers que não vem pré instalados em muitas distribuições.

    Você pode ver uma lista detalhada dos drivers de placas wireless disponíveis e como instalar manualmente cada um deles no meu livro Linux Ferramentas Técnicas.

    Veja uma pequena lista dos drivers e placas suportados no Kismet 2006-04-R1:

    • acx100: O chipset ACX100 foi utilizado em placas de diversos fabricantes, entre eles a DLink, sendo depois substituído pelo ACX111. O ACX100 original é bem suportado pelo Kismet, o problema é que ele trabalha a 11 megabits, de forma que não é possível testar redes 802.11g.

       

    • admtek: O ADM8211 é um chipset de baixo custo, encontrado em muitas placas baratas. Ele é suportado no Kismet, mas possui alguns problemas. O principal é que ele envia pacotes de broadcast quando em modo monitor, fazendo com que sua varredura seja detectável em toda a área de alcance do sinal. Qualquer administrador esperto vai perceber que você está capturando pacotes.

       

    • bcm43xx: As placas com chipset Broadcom podiam até recentemente ser usadas apenas no ndiswrapper. Recentemente, surgiu um driver nativo (http://bcm43xx.berlios.de) que passou a ser suportado no Kismet. O driver vem incluído por padrão a partir do Kernel 2.6.17, mas a compatibilidade no Kismet ainda está em estágio experimental.

       

    • ipw2100, ipw2200, ipw2915 e ipw3945: Estes são os drivers para as placas Intel, encontrados nos notebooks Intel Centrino. O Kismet suporta toda a turma, mas você precisa indicar o driver correto para a sua placa entre os quatro.

    O ipw2000 é o chipset mais antigo, que opera a 11 megabits; o ipw2200 é a segunda versão, que suporta tanto o 8011.b, quanto o 802.11g; o ipw2915 é quase idêntico ao ipw2200, mas suporta também o 802.11a, enquanto o ipw3945 é uma versão atualizada, que é encontrada nos notebooks com processadores Core Solo e Core Duo.

    madwifi_a, madwifi_b, madwifi_g, madwifi_ab e madwifi_ag: Estes drivers representam diferentes modos de operação suportados pelo driver madwifi (http://sourceforge.net/projects/madwifi/), usado nas placas com chipset Atheros. Suportam tanto o driver madwifi antigo, quanto o madwifi-ng.

    Usando os drivers madwifi_a, madwifi_b ou madwifi_g, a placa captura pacotes apenas dentro do padrão selecionado (o madwifi_a captura apenas pacotes de redes 802.11a, e assim por diante). O madwifi_g é o mais usado, pois captura simultaneamente os pacotes de redes 802.11b e 802.11g. O madwifi_ag, por sua vez, chaveia entre os modos "a" e "g", permitido capturar pacotes de redes que operam em qualquer um dos três padrões, mas num ritmo mais lento, devido ao chaveamento.

    rt2400 e rt2500: Estes dois drivers dão suporte às placas com chipset Ralink, outro exemplo de chipset de baixo custo que está se tornando bastante comum. Apesar de não serem exatamente "placas de alta qualidade", as Ralink possuem um bom suporte no Linux, graças em parte aos esforços do próprio fabricante, que abriu as especificações e fornece placas de teste para os desenvolvedores. Isto contrasta com a atitude hostil de alguns fabricantes, como a Broadcom e a Texas (que fabrica os chipsets ACX).

    rt8180: Este é o driver que oferece suporte às placas Realtek 8180. Muita gente usa estas placas em conjunto com o ndiswrapper, mas elas possuem um driver nativo, disponível no http://rtl8180-sa2400.sourceforge.net/. Naturalmente, o Kismet só funciona caso seja usado o driver nativo.

    prism54g: Este driver dá suporte às placas com o chipset Prism54, encontradas tanto em versão PCI ou PCMCIA, quanto em versão USB. Estas placas são caras e por isso relativamente incomuns no Brasil, mas são muito procuradas entre os grupos que fazem wardriving, pois as placas PCMCIA são geralmente de boa qualidade e quase sempre possuem conectores para antenas externas, um pré-requisito para usar uma antena de alto ganho e assim conseguir detectar redes distantes.

    orinoco: Os drivers para as placas com chipset Orinoco (como as antigas Orinoco Gold e Orinoco Silver) precisam de um conjunto de patches para funcionar em conjunto com o Kismet, por isso acabam não sendo placas recomendáveis. Você pode ver detalhes sobre a instalação dos patches no http://www.kismetwireless.net/HOWTO-26_Orinoco_Rfmon.txt.

    Depois de definir o driver, a interface e o nome no "/etc/kismet/kismet.conf", você pode abrir o Kismet chamando-o como root:

     # kismet 

     

    Inicialmente, o Kismet mostra as redes sem uma ordem definida, atualizando a lista conforma vai descobrindo novas informações. Pressione a tecla "s" para abrir o menu de organização, onde você pode definir a forma como a lista é organizada, de acordo com a qualidade do canal, volume de dados capturados, nome, etc. Uma opção comum (dentro do menu sort) é a "c", que organiza a lista baseado no canal usado por cada rede.

    Por padrão, o Kismet chaveia entre todos os canais, tentando detectar todas as redes disponíveis. Neste modo, ele captura apenas uma pequena parte do tráfego de cada rede, assim como você só assiste parte de cada programa ao ficar zapiando entre vários canais da TV.

    Selecione a rede que quer testar usando as setas e pressione "shift + L" (L maiúsculo) para travá-lo no canal da rede especificada. A partir daí ele passa a concentrar a atenção numa única rede, capturando todos os pacotes transmitidos:

    Você pode também ver informações detalhadas sobre cada rede selecionando-a na lista e pressionando enter. Pressione "q" para sair do menu de detalhes e voltar à tela principal.

    Outro recurso interessante é que o Kismet avisa sobre "clientes suspeitos", micros que enviam pacotes de conexão para os pontos de acesso, mas nunca se conectam a nenhuma rede, indício de que provavelmente são pessoas fazendo wardriving ou tentando invadir redes. Este é o comportamento de programas como o Netstumbler (do Windows). Micros rodando o Kismet não disparam este alerta, pois fazem o scan de forma passiva:

     ALERT: Suspicious client 00:12:F0:99:71:D1 - probing networks but never participating. 

     

    O Kismet gera um dump contendo todos os pacotes capturados, que vai por padrão para a pasta "/var/log/kismet/". A idéia é que você possa examinar o tráfego capturado posteriormente usando o Ethereal. O problema é que, ao sniffar uma rede movimentada, o dump pode se transformar rapidamente num arquivo com vários GB, exibindo que você reserve bastante espaço no HD.

    Um dos maiores perigos numa rede wireless é que qualquer pessoa pode capturar o tráfego da sua rede e depois examiná-lo calmamente em busca de senhas e outros dados confidenciais transmitidos de forma não encriptada. O uso do WEP ou outro sistema de encriptação minimiza este risco, pois antes de chegar aos dados, é necessário quebrar a encriptação.

    Evite usar chaves WEP de 64 bits, pois ele pode ser quebrado via força bruta caso seja possível capturar uma quantidade razoável de pacotes da rede. As chaves de 128 bits são um pouco mais seguras, embora também estejam longe de ser inquebráveis. Em termos se segurança, o WPA está à frente, mas usá-lo traz problemas de compatibilidade com algumas placas e drivers.

    Sempre que possível, use o SSH, SSL ou outro sistema de encriptação na hora de acessar outras máquinas da rede ou baixar seus e-mails.

    No Guia "Acesso Remoto: SSH, FreeNX e VNC", vemos como é é possível criar um túnel seguro entre seu micro e o gateway da rede, usando o SSH, permitindo assim encriptar todo o tráfego. Ele está disponível no:


    Gostou da dica? Venha fazer um curso com o autor:

    Curso: Redes e servidores Linux

    Com Carlos E. Morimoto

    Em São Paulo, de 29/05 a 03/06 (intensivo, com aulas à tarde)

    Este é um curso sobre a configuração de servidores Linux. Nele você aprende a configurar cada serviço diretamente nos arquivos de configuração ou utilizando ferramentas genéricas, sem se prender a uma única distribuição. Os exemplos dados durante o curso usam como base o Debian e Fedora, com dicas de peculiaridades do Mandriva, Slackware, Kurumin e Ubuntu.

    Este é um curso intensivo, onde você passa menos tempo vendo teoria e opções pouco usadas e mais tempo aprendendo a resolver problemas do dia a dia. O formato das aulas permite que sejam abordados uma grande quantidade de temas numa única semana, oferecendo uma visão global dos recursos disponíveis e onde eles podem ser aplicados. Ao invés de fazer um curso sobre o Squid, outro sobre o Samba, outro sobre o Apache, etc., você aprende muitas coisas de uma única vez, economizando tempo e dinheiro.

    Nesta turma do dia 29/05, combinou do curso de redes e o curso para iniciantes serem ministrados na mesma semana: o curso para iniciantes de segunda a sexta, das 8:00 às 11:00, e o curso de redes das 12:30 às 18:00. Fazendo o curso de redes, você tem acesso também às aulas para iniciantes e pode fazer os dois cursos simultaneamente (pagando apenas um), e assim aproveitar para tirar todas as dúvidas.

    Veja mais detalhes sobre a programação de cursos, temas abordados, preços e formas de pagamento no:

    http://guiadohardware.net/cursos/

    Todas as aulas do curso de redes são ministradas pelo próprio Carlos Morimoto, o que garante o nível do curso. Nada de aulas inaugurais e mutretas do gênero :)




    Fonte: http://www.dicas-l.com.br/print/20060509.html

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    Usando o NetCAT

    by linuxdicas (30/11/2007 - 23:59)

    Usando o NetCAT

    Colaboração: André Jaccon

    O NetCat é um utilitário que lê e escreve através de conexões de rede usando protocolos TCP e UDP.

    1. Considerações Iniciais

    Plataforma usada:

    • Debian 3.0 (Woody) / Kernel 2.4.30
    • NetCat "NC" - 1.20-27

    O NetCat pode ser instalado através da ferramenta Apt-Get no Debian usando o Mirror:

     deb http://mirrors.kernel.org/debian/ testing main deb-src http://mirrors.kernel.org/debian/ testing main 

    Após adicionar os mirrors em seu /etc/apt/sources.list atualize o bd do Apt e instale o NC com os comandos abaixo:

     apt-get update ; apt-get install netcat 

     

    2. Exemplos de uso do NetCat

    1. Com o NetCat você poderá testar se suas configurações do servidor de SMTP estão disponibilizando Relay's adequadamente ou não, veja o exemplo abaixo:

       

       #netcat proveedor.internet.es 25 helo holahola mail from:<nobody@linux.org> rcpt to:<mailteste@seuservidor.com> 250 Recipient <destinatario@maquina.com> Ok data 354 Ok Send data ending with <CRLF>.<CRLF> Subject: prova X-Mailer: by-hand cutremail X'-D . 
      Caso a mensagem com código 354 apareça isso quer dizer que seu servidor está possibilitando Relay indevidamente, para finalizar tecle "." para fechar a conexão com o servidor.

       

    2. Visualizando e-mails através do protocol POP

       

      O NetCat é uma ótima ferramenta para executar teste de recebimento de e-mail's sem a necessidade de um software de e-mail cliente, veja o exemplo abaixo:
       #netcat seuservidor 110 +OK Bem vindo ao servidor POP3 de MailServer user sincronicx +OK password required for user carcoco pass delpassword list 1 2451 2 123433 3 323 dele 2 quit +OK goodbye 
      Com o exemplo de comando acima conectamos em seuservidor através da porta 110 POP, e entramos com usuário e senha para listar os 3 e-mail que estavam na caixa, logo após com o comando "dele 2" deletamos o e-mail de número 2 no Inbox. para finalizar saimos do servidor com o comando "quit"

       

    3. Verificar informações sobre o servidor web de um determinando provedor
       #netcat www.linux.org 80 get . / 

       

    4. Criar um sistema de comunicação Shell entre máquina remotas

       

      Para criar um sistema de comunicação equivalente ao comando wall use o comando na máquina 1:

       

       #nc -l -p 12345 

       

      onde a flag -p é a porta de comunicação que abriremos em nossa máquina 1.

       

      Na máquina 2 entre com o comando:

       

       #netcat ip-ou-nome-de-maquina1 12345 

       

      Com isso será aberta um canal de comunicação através da porta 12345 no qual você poderá usar para mensagens instantaneas ou ainda transferência de arquivas.

       

    5. Transferir arquivos entre máquinas:

       

      Digamos que você precisa transferir um arquivo entre uma máquina e outra porém você não possui nenhum serviço client/servidor disponivél para transferência entre as máquinas, você pode usar o NC para transferir estes arquivos exemplo:

       

      Digamos que a máquina 1 possui o arquivo teste.txt no qual deverá transferir para a máquina 2, para isso use o comando na máquina 1:

       

       #netcat -l -p 4000 < teste.txt 

       

      Na máquina 2 entre com o comando:

       

       #netcat maquina1 4000 > teste.txt 

       

      Ao final da transferência tecle CTRL+D para finalizar. verifique o diretório corrente.

    Estas foram algumas das muitas funções possiveis com o NC, para saber mais sobre o NetCat consulte os Man Pages ou Info.




    Fonte: http://www.dicas-l.com.br/print/20060718.html

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    Mr. Gates e Mr. Da Silva

    by linuxdicas (21/11/2007 - 02:43)

    Mr. Gates e Mr. Da Silva

    Copyright: No Mínimo (http://www.nominimo.com.br), 4/11/02, Pedro Doria

    "A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência mexeu com os nervos da empresa que está no cerne da revoulção tecnológica: a Microsoft. O Brasil é um dos maiores mercados sendo explorados pela companhia fundada por Bill Gates no final dos anos 70 mas, ao longo dos últimos anos, o PT vem se comprometendo com um projeto de tecnologia ligado ao software livre - antítese do que representa a Microsoft. Esta opção está marcada a tinta no programa do próximo governo federal e vem sendo executada por quase todos os governos importantes do PT, incluindo-se aí o Rio Grande do Sul, Campinas, Belo Horizonte e, agora, São Paulo.

    O primeiro gesto público de aproximação veio ainda na última semana da campanha de Lula, quando levados pelo senador petista eleito Cristóvam Buarque, representantes de Gates fizeram ao então candidato um convite formal para conhecê-lo. Esta reunião, que incluiria outros altos executivos de empresas de tecnologia como HP e Sun Microsystems, pode acontecer ainda antes da posse.

    O convite não ficou sem resposta. O grupo petista ligado ao software livre está organizando uma reunião paralela. Se Lula encontrar Gates, deverá encontrar, também nos EUA, gente como Richard Stallmann, presidente da Fundação do Software Livre e Linus Torvalds, criador do Linux. A idéia é mostrar que Lula conversa com todos mas não tem compromisso com ninguém em particular. Se este encontro for no Instituto de Tecnologia de Massachussets, onde Stallmann mantém seu escritório, estarão presentes também meia dúzia de homens que podem colocar em seus currículos a paternidade da Internet. Serão pesos pesados de ambos os lados.

    Vai ser uma dura mudança para a Microsoft. A estatística que circula pelo Congresso Nacional é que, dado o volume da pirataria de software no Brasil, o governo representa 80% dos lucros da empresa no país. Vem sendo uma relação complicada e monopolista. A Microsoft permite a apenas uma empresa, a TBA de Brasília, as vendas para o governo, impedindo qualquer licitação por seus produtos. O software livre é, neste sentido, um competidor árduo, já que sai virtualmente de graça. O que custa é o treinamento. A experiência dos últimos meses do Serpro, ligado ao Ministério da Fazenda, parece indicar que este treino, para o usuário típico, nem é tanto assim.

    Embora em seu discurso oficial a empresa que fabrica o Windows banque horror à pirataria, na prática, desde sua fundação, a relação tem sido diferente. Ela é discretamente estimulada. No início, usuários são incentivados a usar os produtos ao máximo até criar o hábito. Então, quando a base instalada ganha o vulto de milhões, como vem acontecendo no Brasil nos últimos anos, campanhas contra pirataria, que incluem pesadas multas contra empresas que podem levá-las ao fechamento, são movidas. O objetivo é transformar o monopólio adquirido em lucro. Daí a distorção em ter no governo seu maior cliente.

    Virada estratégica

    No último mês, a Microsoft fez uma mudança radical de rumos em sua estratégia mundial. Colocou o Linux, e com ele todo o movimento do software livre, como inimigo primordial. A mudança foi representada por um email enviado pessoalmente por Bill Gates a todos os funcionários da empresa - na última vez que isso aconteceu, em meados da década de 1990, Gates cobrava de todos como compromisso prioritário com a Internet.

    Nesta nova mensagem, o presidente da Microsoft informou a todos que a empresa precisava lidar com a questão da segurança. Seus softwares nunca foram seguros. Têm falhas mil no código que permitem a rápida infecção por vírus ou intrusão de hackers. Se isso, no entanto, nunca havia servido de obstáculo, nos últimos dois, três anos, após prejuízos monumentais, muitas empresas têm-se voltado para o padrão Linux.

    Segundo Gates, entre incluir uma novidade num software e corrigir um problema, passa-se a priorizar a solução do problema. É uma mudança radical de cultura. Parte da estratégia da empresa foi sempre produzir novas versões de seus programas, todas com muitas novidades, permitindo-lhe vender um Word novo para quem já comprou a toda hora. Isso, mesmo que nada das novidades viessem a ser usadas por muita gente.

    Em um ou dois anos, isso quer dizer que os softwares da Microsoft serão melhores - mas não resolve o problema de hoje, nem muitos dos outros de amanhã. Aí entra a crescente diplomacia à qual a empresa tem-se dedicado. Depois que no governo democrata de Bill Clinton viu-se quase condenada à cisão, por conta de práticas que, entendeu na época a Justiça norte-americana, violavam a legislação anti-truste daquele país, a empresa passou a investir nos relacionamentos com os governos.

    Por conta, seu presidente mundial, Steve Ballmer, vem visitando países e encontrando-se com governantes. Esteve com o presidente Fernando Henrique em 2001. Além disto, em abril último convidou políticos proeminentes de todo o mundo para uma grande conferência de líderes mundiais em Seattle a fim de discutir o uso da tecnologia nos governos. Entre os agraciados com o convite estava Cristóvam.

    O uso na educação

    O ex-governador do Distrito Federal esteve a sós com Ballmer na época, quando conversaram a respeito do uso de tecnologia para educação. Cristóvam saiu bem impressionado do encontro. Ele, que é um dos mais importantes nomes do PT na área da educação, é pai do projeto Bolsa Escola que foi encampado pelo governo FH. Seu nome, junto com o do físico carioca Luiz Pinguelli Rosa, é um dos mais cotados para assumir o MEC.

    A relação de informática com educação vem sendo pesadamente questionada nas últimas semanas, após um estudo israelense indicar que o computador na sala de aula às vezes até distrai o aluno do real ensino. Há que se levar em conta, no entanto, a crucial diferença entre Israel - e por conseqüência a Europa, onde o estudo está sendo levado a sério - com o Brasil. Lá, as crianças têm computador em casa. Daí volta à tona um dos mais importantes projetos que se viram frustrados na administração do ministro Paulo Renato: o do FUST, que pretende levar computadores a todas as escolas públicas do país.

    Na época, no segundo semestre de 2001, o MEC decidiu que os computadores deveriam rodar, todos, o Windows da Microsoft. O projeto terminou alvo de uma investigação por parte do Ministério Público, dado que se as máquinas rodassem Linux, poderiam ser compradas em dobro. Os deputados federais Walter Pinheiro (PT-BA) e Sergio Miranda (PCdoB-MG) terminaram por aprovar uma emenda que forçava, também e no mínimo, a instalação do Linux.

    Independentemente da óbvia vantagem do preço, a bancada do software livre no Congresso, que tem em seus líderes Pinheiro e Miranda, apresenta um argumento sólido mas de difícil compreensão: o código aberto. Quando escrito, um programa é literalmente redigido numa linguagem e só no fim deste processo é que ele é transformado num executável, algo que a máquina compreenda. Esta primeira versão, compreensível por pessoas, no caso dos softwares livres, é igualmente pública. No caso da Microsoft, não, ela é considerada informação privilegiada de domínio privado.

    Numa análise geral, isso quer dizer que um técnico nunca sabe exatamente o que um programa da Microsoft faz. Ele pode - e o caso é real - enviar informação a respeito do usuário para os computadores da empresa, nos EUA, sem que o mesmo usuário jamais desconfie. Um perigo quando se pensa numa máquina que lida com informações secretas do governo - e um dos motivos alegados por governos nos quatro cantos do mundo para adotar o Linux.

    Mas há uma questão mais sutil. Quando Bill Gates ainda era um menino maravilhado com tecnologia, no início dos anos 1970, ele aprendeu a fazer seus pequenos milagres digitais usando um computador cedido gentilmente por uma universidade. Neste computador, ele tinha acesso não apenas aos programas prontos, mas também aos esqueletos deles. Lendo o código escrito por outros para os computadores é que entendeu seus processos. Jovens Bill Gates aparecem em todas as classes sociais - dependem, apenas, de ter a mesma oportunidade: acesso a computadores e ao código de seus programas.

    A alegação do MEC era, e continua sendo, que os sistemas da Microsoft são o padrão do mercado. Alunos educados com seus sistemas, no entanto, aprendem no máximo a ser operadores de Excell ou PowerPoint - não têm muito como fuçar as entranhas e descobrir seus segredos, quanto mais condições de sonhar com vôos altos. O Brasil já cometeu este erro uma vez.

    Veja-se o exemplo da Índia. Enquanto aqui o país jogou no alto os impostos dos computadores, nos anos 80, para estimular a produção interna de máquinas, a Índia jogou para baixo. Taxou caro apenas o software. O resultado foi uma legião de meninos brilhantes que hoje ocupam cargos entre os altos executivos de, sem exceção, todas as grandes empresas de tecnologia. Incluindo a própria Microsoft.

    O encontro com Bill Gates

    Não serão poucas as pressões que o presidente-eleito Lula vai enfrentar para lidar com a chaga da exclusão digital, que ameaça, a cada turma formada, mais uma geração de brasileiros. Aprende-se a lidar profundamente com computador ainda criança, não depois. O Brasil precisará de todos os parceiros com os quais pode contar. E Bill Gates, não apenas através da Microsoft, mas também de sua Fundação, é um parceiro precioso.

    Lula confirma, apenas, sua viagem à Argentina. Mas dentro do PT já se lida abertamente com a possibilidade de uma viagem aos EUA anterior à posse, para o encontro com o presidente George W. Bush. Além de um gesto de boa vizinhança, é uma maneira discreta de reiterar que ele não é um ditador como Fidel Castrou ou, a seu modo, Hugo Chávez.

    Aproveitar a passagem para visitar Gates e os outros líderes da indústria digital, na análise do PT, produzirá boas fotos para o consumo interno de Wall Street - distanciando-o da maneira como Castro, por exemplo, lida com Internet. O outro encontro, com os principais líderes do software livre, também não fará nada feio. Ambos formam um compromisso com tecnologia e reiteram o interesse do Brasil.

    E, se Cristóvam está ligado à Microsoft, Pinguelli comandou no governo de Benedita da Silva, no Rio, o início da mudança para o software livre. O mercado de capitais pode estar de olho em quem ocupará a Fazenda e o BC. O de tecnologia está louco para saber quem ficará com o MEC."




    Fonte: http://www.dicas-l.com.br/print/20021109.html

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    Livre acima de tudo

    by linuxdicas (21/11/2007 - 02:39)

    Livre acima de tudo

    Autor: Rafael Evangelista, Planeta PortoAlegre

    Por trás de uma aparente distinção técnica, os termos software livre e código aberto, criados por Richard Stallman e Eric Raymond, escondem diferenças políticas e ideológicas

    Não foi à toa que George Orwell, ao imaginar um futuro tenebroso em 1984, descreveu como um dos pilares de seu Estado autoritário uma polícia da informação, responsável pela fiscalização e pelo emprego da novilíngua. As palavras não são figuras inertes, que servem só para descrever coisas. No sentido, inscrevem-se também história e ideologias.

    Também não é à toa que, no mundo do software livre, exista uma constante disputa sobre os nomes e as palavras utilizadas. Essa discussão, às vezes, torna tudo muito mais confuso para quem não participa do debate, mas é um sinal de que a comunidade, mesmo quando só quer se preocupar em fazer software, se ocupa também de questões políticas, de poder. Dizer é se colocar no mundo, é assumir posição. Afinal, há alguma diferença entre falar Linux ou GNU/Linux? Ou entre se dizer um adepto do movimento pelo software livre ou do movimento de código aberto? Há sim, e muita.

    Para além das respostas simplistas e pragmáticas, a solução pode ser encontrada na história do movimento. Ninguém nega que tudo saiu das mãos e da cabeça do guru Richard Stallman que, ainda na década de 1980, delineou os princípios éticos do movimento. Na época, Stallman, fundador da Free Software Foundation (FSF, Fundação do Software Livre, em inglês), estabeleceu as quatro liberdades que fundamentam o movimento: o software deve ser livre para ser modificado, executado, copiado e distribuído. Ambos, o código aberto e o software livre, respeitam esses parâmetros.

    Sem dúvida, Stallman continua sendo o grande filósofo do movimento. No entanto, a partir de 1991, ele se vê obrigado a dividir o palco com uma jovem estrela da Finlândia, Linus Torvalds. Carismático, empreendedor e sabendo usar melhor a internet, ele conseguiu dar solução a um problema que a FSF se dedicava há anos, construir um kemel que suportasse um sistema operacional alternativo. O kernel é uma parte central do sistema, responsável pela configuração e gerenciamento dos dispositívos (teclado, mouse, monitor etc). A FSF já tinha todo o resto da estrutura do sistema pronta e trabalhava no desenvolvimento de seu kernel. Linus foi mais rápido e, mantendo a filosofia livre, adotou soluções tecnicamente mais eficientes, criando o Linux, essa parte essencial do sistema.

    O método de desenvolvimento adotado por Linus está em A Catedral e o Bazar, livro escrito por Eric Raymond, em 1997. A obra é também uma alfinetada em Stallman, acusado de adotar uma postura centralizadora de desenvolvimento. Raymond descreve o desenvolvimento GNU como se fossem catedrais, monumentos sólidos, construídos a partir de um grande planejamento central. Já o desenvolvimento adotado por Linus seria como um bazar, com uma dinâmica altamente descentralizada. Diz Raymond: "Penso que a criação mais esperta e de maiores consequencias não foi a construção do kernel em si, mas a invenção do modo de desenvolvimento Linux".

    Alma hippie

    Mas há mais na fala de Raymond com relação ao modelo Linux do que o elogio da técnica - embora o sucesso desta seja inegável. Stallman sempre foi uma figura politicamente muito atuante, não apenas no campo da informática. Mais velho, tendo vivido toda a experiência da luta pelos direitos civis nos EUA, Stallman carrega em seu discurso uma ótica pouco amigável às empresas. Em seu site pessoal, por exemplo, ao lado de artigos em favor do software livre, encontram-se também ensaios políticos sobre temas como a invasão estadunidense ao Iraque e o muro de Israel na Palestina. Raymond, por sua vez, é um ardoroso defensor da liberalização do uso de armas, tema usualmente mais ligado às bandeiras da direita.

    Linus, por sua vez, além de ser politicamente mais moderado e pragmático, consegue criar uma identidade maior com a nova geração de programadores abaixo dos 40 anos, da qual Raymond faz parte. Essa geração, segundo Sam Willians, autor do livro Free as in Freedom, é mais energética e ambiciosa.

    Desde a ascensão do trabalho de Linus, boa parte do tempo de Stallman tem sido gasta em pedidos para que todos refiram-se ao conjunto do software como GNU/Linux e não apenas Linux. Quer somente que seu trabalho, e de toda FSF, seja reconhecido.

    Lutas que incomodam

    Se o discurso politizado e a integridade radical de Stallman nunca foram de fácil digestão para os programadores da nova geração, ambos são ainda mais indigestos para os empresários. Raymond teve um papel decisivo na criação da alternativa mais ao gosto do paladar corporativo.

    Em A Catedral e o Bazar, ele descreveu um processo de produção inovador e descentralizado, em que as alterações no software são rapidamente entregues à comunidade. Esta, testando e avaliando o produto, estabelecem uma espécie de seleção natural em que as melhorias sobrevivem e as soluções falhas são logo identificadas. A descrição encantou os executivos da Netscape, dona de navegador de internet que havia sido destruído pela ofensiva agressiva - e anti-competitiva, segundo os próprios tribunais dos EUA - da Microsoft e seu Internet Explorer. Em 1998, Raymond foi a peça chave no processo de convencimento dos executivos da Netscape para que liberassem o código.

    O prestígio adquirido por Raymond, somado ao do carismático Linus, foram essenciais para que o movimento de código aberto (open source, em inglês) pudesse se estabelecer. Frequentemente, Stallman procurava - e procura até hoje - deixar claro que o free de free software (do termo original em inglês), não significa grátis mas livre. A confusão entre livre e grátis tornou-se a justificativa perfeita para que surgisse o termo código aberto, neutralizando a reivindicação política do movimento.

    Não há diferenças substanciais entre o que os termos software livre e código aberto pretendem definir. Ambos estabelecem praticamente os mesmos parâmetros que uma licença de software deve conter para ser considerada livre ou aberta. Ambas estabelecem, na prática, que o software deve respeitar aquelas quatro liberdades básicas que a FSF estabeleceu. Mas os defensores do termo código aberto afirmam que o termo fez com que os empresários percebessem que o software livre também pode ser comercializado. Teriam sido mudanças pragmáticas e não ideológicas.

    O próprio Richard Stallman diz não ver o grupo do código aberto como inimigo. "Nós discordamos dos princípio básicos, mas meio que concordamos com as recomendações práticas. Então podemos trabalhar juntos em muitos projetos", diz.

    O fato é que a Iniciativa do Código Aberto (Open Source Iniciative, em inglês), entidade cuja criação foi proposta por Eric Raymond, significou uma polarização de poder com a FSF de Stallman. Como ambas as entidades e o movimento como um todo só cresceram nos últimos anos, isso não significou um enfraquecimento para Stallman.

    Confunde ou explica?

    Em seu livro de ensaios, Free Software, Free Society, Stallman argumenta com razão que o termo código aberto na verdade confundiu mais do que esclareceu. "O sentido óbvio para a expressão código aberto é: 'você pode olhar o código'. Essa expressão é tão ambígua quanto o termo free software (software livre) em inglês", escreve. De fato, não basta que um usuário possa ler o código de um programa para que ele seja livre. A liberdade para olhar o código é apenas uma das quatro liberdades fundamentais.

    Stallman continua, colocando o dedo na ferida e apontando a despolitização do termo. "O principal argumento para o termo código aberto é que software livre deixa as pessoas inquietas. É verdade: ele fala de liberdade, sobre ética, sobre responsabilidade tanto quanto sobre conveniências. Ele convida as pessoas a pensar sobre coisas que elas poderiam ignorar. Isso desperta desconforto e algumas pessoas podem rejeitar a idéia por isso. Mas isso não significa que a sociedade vai ficar melhor se pararmos de falar nesses assuntos".

    Há exemplos de como o termo código aberto tem sido usado de maneira traiçoeira. Em resposta às crescentes acusações de que os clientes de seus produtos não tem acesso ao código fonte (as linhas de instruções que formam um software), a Microsoft tem respondido com o seu programa Shared Source (algo como código compartilhado). Por esse programa, a empresa mostra partes do código de seus produtos a clientes como universidades e governos. Na prática, ela torna parte de seu código aberto, o que não significa que ela se torne adepta dos softwares livres. Para isso, o código deveria ser aberto a todos - e não só à vistoria de seus clientes - e deveria ter sua execução, distribuição e modificação permitidas livremente.

    Entre a comunidade de software, ciente de que código aberto e software livre significam praticamente as mesmas recomendações, dizer um ou outro na verdade significa tomar partido de um determinado grupo e de uma certa inclinação política. Para quem acha que, além da eficiência e da estabilidade de certos programas, é preciso construir alternativas mais justas de distribuição da produção e do conhecimento, o termo software livre parece ser a melhor opção.




    Fonte: http://www.dicas-l.com.br/print/20041129.html

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    Snort + ACID + MySql no Slackware

    by linuxdicas (20/11/2007 - 21:58)

    Snort + ACID + MySql no Slackware

    Colaboração: Fred I. de Oliveira

    O SNORT é um NIDS (Network Intrusion Detection System). È usado para detectar invasões em sua rede, analisando protocolos e conteúdo de pacotes.

    O ACID (Analisys Console for Intrusion Databases) é usado para analisar os logs do SNORT e apresenta-los em uma intarface WEB.

    Pré-Requisitos

    • Sistema Operacional Linux (Slackware 10.2 Kernel 2.6.13)
    • Servidor Web Apache
    • Interpretador PHP4
    • MySQL

    Caso os pacotes acima ainda não estejam instalados, você pode fazer download dos pacotes no site http://www.linuxpackages.net ou usar o CD 1 de instalação.

    Instalação

    Agora entre no site http://www.snort.org/dl/ e faça o download do arquivo de instalação do SNORT, a versão atual é a 2.6.

    Agora descompacte o arquivo:

     # tar xzvf snort-2.6.0.tar.gz # cd snort-2.6 

     

    Agora vamos compilar o snort com suporte ao MySql.

     # ./configure with-mysql=/usr # make # make install 

     

    Se tudo correu bem seu Snort está instalado, mas ainda faltam alguns ajustes. Crie uma pasta chamada rules no /etc:

     # mkdir /etc/rules 

     

    Para baixar as rules entre no site http://www.snort.org/pub-bin/downloads.cgi Após o download descompacte o arquivo na pasta /etc/rules

     # tar xzvf snortrules-*.tar.gz # mv snortrules-*/* /etc/rules/ 

    Base de dados do SNORT

    Primeiro é necessário criarmos a base de dados que será usada para armazenar o registro dos ataques, e um usuário que terá permissão para adicionar esses registros na database.

     # mysql u root p mysql> create database snort; mysql> grant all privileges on snort.* to snort@localhost identified by 12345 ; mysql> quit 

    Agora iremos criar as tabelas na database para o funcionamento do SNORT. Entre no diretório onde o snort foi descompactado e execute o comando abaixo:

     # mysql u root p snort < schemas/create_mysql 

     

    Configuração do SNORT

    O arquivo de configuração do SNORT encontra-se na pasta /etc. Você deverá editá-lo de acordo com suas necessidades. Alguns campos devem ser alterados obrigatoriamente, para isso siga as instruções abaixo:

     # vi snort.conf 

     

    Agora altere o campo var HOME_NET para o IP da máquina ou rede que irá monitorar, e também o campo var DNS_SERVERS para o endereço do seu DNS, evitando assim que o SNORT crie alertas com os acessos vindos do mesmo.

    Procure a linha abaixo e deixe-a descomentada.

     output database: log, mysql, user=snort password=12345 dbname=snort host=localhost 

    Essa linha faz com que todos os logs do SNORT sejam gravados no banco de dados para que posteriormente sejam mostrados pelo ACID.

    Feito isso salve e saia do arquivo ( :wq! )

    Configuração do ACID

    Você pode encontrar o ACID para download no site http://www.cert.org/kb/acid. A versão atual disponível para download é a 0.9.6b23.

    Também é necessário baixar o ADODB para o perfeito funcionamento do ACID. O download pode ser feito no link http://prdownloads.sourceforge.net/adodb/adodb491.tgz?use_mirror=ufpr

    Após o download do arquivo descompacte-o na pasta /var/www/htdocs

     # tar xzvf acid-0.9.6b23.tar.gz -C /var/www/htdocs 

     

    Descompacte o adodb dentro da pasta acid.

     # tar xzvf adodb491.tgz -C /var/www/htdocs/acid 

     

    Agora entre na pasta criada e edite o arquivo acid_conf.php

     # cd /var/www/htdocs/acid/ # vi acid_conf.php 

    Agora altere os campos abaixo:

     $DBlib_path = "/var/www/htdocs/acid/adodb"; $alert_dbname = "snort"; $alert_host = "localhost"; $alert_port = ""; $alert_user = "snort"; $alert_password = "12345"; 

    Os próximos passos da configuração serão feitas pelo seu navegador. Abra um navegador de sua preferência e entre no endereço http://localhost/acid

    Depois de abrir o endereço acima, clique no link Setup Page, depois disso ele estará pronto para o uso :)

    Iniciando e Testando o Snort

    Para iniciar o Snort digite a linha de comando abaixo:

     # /usr/local/bin/snort -D 

     

    Para testa-lo, entre em algum outro computador e tente varrer as portas abertas no servidor onde está o SNORT.

    Supondo que a máquina onde o SNORT está rodando tenha o IP 10.21.0.4 vou usar a máquina 10.21.0.5 para varrer as portas:

     # nmap 10.21.0.4 

     

    Agora na máquina 10.21.0.4 entre no seu navegador e entre no endereço http://localhost/acid

    Se durante a instalação tudo correu bem e o snort foi iniciado sem erros, ele irá apresentar as tentativas de invasão.

    Espero que o Artigo seja de bom proveito para a comunidade.

    Fred I. de Oliveira <<fred (a) sejalivre com br>>, Porto Velho/RO




    Fonte: http://www.dicas-l.com.br/print/20060911.html

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    Sofrimento em Frente ao Monitor

    by linuxdicas (20/11/2007 - 21:33)

    Sofrimento em Frente ao Monitor

    Estou reproduzindo aqui uma matéria que saiu no jornal Correio Brasiliense abordando a questão da saúde dos trabalhadores em informática. Este é um assunto muito importante e se você tiver um tempo, não deixe de lê-lo.

    SAÚDE

    Quase 70% dos analistas de sistemas sofrem de fadiga mental. Casos forçaram até acordo entre patrões e empregados

    Valquíria Rey Da equipe do Correio Brasiliense

    Marcos Fernandes 2.6.2000

    Conceição Granado, analista de sistemas, largou a profissão: ''Chorava e tremia quando enxergava um computador na minha frente'' São Paulo - As lágrimas escorrem no rosto da analista de sistemas Conceição Aparecida Granado, quando lembra dos 40 dias em que sofreu grave crise de amnésia e apagou da memória detalhes de sua vida. Ela trabalhava até 15 horas diárias, incluindo finais de semana, no centro de processamento de dados de um banco. Não reclamava da falta de tempo para ir ao médico tratar infecções urinárias e constantes dores de cabeça. Acabou sentindo os piores efeitos causados pelo cansaço e o estresse de sua profissão.

    Conceição, de 44 anos, ficou cinco meses afastada do emprego e só conseguiu retomar a atividade com medicação e muitas horas em sessões de análise e psiquiatria. Hoje, passados dois anos, ela tem certeza que o problema poderia ser evitado se tivesse diminuído o ritmo de trabalho. Seu drama é um dos exemplos citados pela diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados de São Paulo (Sindpd) para ilustrar os riscos a que estão sujeitos os analistas de sistemas no ambiente de trabalho e a importância da prevenção para diminuir ou evitar doenças ocupacionais.

    Há um mês, a categoria conquistou importante vitória. O Sindpd, juntamente com o Sindicato das Empresas de Processamento de Dados e Serviços de Informática (Serprosp) e a Delegacia Regional do Trabalho (DRT) assinaram uma convenção coletiva para prevenir esses tipos de doenças.

    AMBIENTE SADIO

    Um dos aspectos mais importantes da nova legislação é a preocupação em diminuir os fatores que prejudicam a saúde mental dos trabalhadores. Exemplos: as empresas estão obrigadas a reduzir o nível de ruído nas salas, a estabelecer um grau saudável para a temperatura e a iluminação do ambiente de trabalho e têm que, obrigatoriamente, realizar exames médicos constantes para evitar que os males somente sejam identificados quando já são sérios. A falta de cumprimento dessas orientações implicará até sanções pelo Ministério do Trabalho - embora ainda não tenham sido definidas.

    A preocupação é fundamental: como o raciocínio lógico é uma das principais características da profissão, os analistas são vítimas em potencial de distúrbios mentais e comportamentais. Conceição é apenas uma das vítimas das doenças decorrentes de sua profissão. Teve uma amnésia estressante temporária. ''Meu cérebro estava muito sobrecarregado'', recorda. ''Tudo foi decorrente do excesso e da pressão no trabalho. Durante o período da amnésia, chorava e tremia quando enxergava um banco ou um computador na minha frente.''

    Ela conta que muitos colegas sentem sintomas semelhantes aos que teve antes da amnésia e não vão ao médico. ''Eles se automedicam. Há grande número de viciados em aspirina, neosaldina, buscopan e antidepressivos'', assinala. ''Outros têm infecções urinárias constantes, porque não podem abandonar o trabalho para beber água ou ir ao banheiro.''

    Pérsio Dutra, diretor do Sindpd, lembra do caso de outro analista que viveu grave situação de estresse, depois de passar 48 horas implantando um sistema. ''Ele foi até o estacionamento da empresa e começou a correr em círculos no sentido anti-horário'', revela. ''Horas depois de ter iniciado esse movimento repetitivo, seus colegas perguntaram o que estava acontecendo. Ele respondeu que estava correndo contra o tempo.''

    Casos como esse são comuns entre os analistas. Estudo realizado por Lys Esther Rocha, médica do trabalho da DRT e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), revela dados alarmantes. Dos 553 trabalhadores entrevistados, 66% reclamaram de fadiga mental, 41% de cansaço físico e 35% de fadiga visual - cansaço na vista, sensação de peso nos olhos, enfraquecimento da acuidade visual, devido à permanência prolongada diante do monitor de vídeo do computador.

    O estudo foi financiado pelo Ministério do Trabalho e mais tarde virou tese de doutorado da médica da DRT. Revelou que 73% apresentavam queixas quanto à irritabilidade. A ansiedade foi outra característica relatada por 68% dos profissionais. Entre os sintomas mais notados, 88% dos entrevistados disseram ser auto-exigentes. Segundo Lys Esther, essa característica é causada pela pressão psicológica sofrida.

    ''Eles não podem errar durante a elaboração de um programa de computador. Por isso são tão exigentes'', diz. ''O problema é que acabam transferindo essa 'qualidade' em seus relacionamentos. Muitos levam a relação compartilhada com o computador para o convívio com as pessoas. Acham que elas também não podem cometer erros.''

    PROFISSÃO

    Os analistas são responsáveis pela implantação de sistemas de automação e de programas de computador. Eles organizam, por exemplo, a reserva de passagens das companhias aéreas, a folha de pagamento das empresas, os serviços de loteria esportiva e bancário via Internet. Para que tudo funcione perfeitamente, precisam prever possibilidades de erros e evitar que eles ocorram. É uma categoria recente - em torno de 30 anos - e crescente, devido a disseminação da informática em inúmeros ramos da atividade econômica. Um banco, uma metalúrgica, toda empresa que tem programa de computador conta com alguém para implementá-lo. O nome pode ser diferente, apesar das funções desempenhadas serem semelhantes.

    Além de analistas de sistemas, são beneficiados pela lei os analistas de produção, de teleprocessamento, de bando de dados, de suporte ao usuário, programadores de computador, programadores de sistemas ou consultores de informática. Em São Paulo, são 50 mil pessoas, sendo que 85% têm curso superior e ganham entre R$ 1.800 e R$ 6.000. A maioria tem entre 25 e 35 anos, 70% são homens e, 30%, mulheres.

    ''O surgimento de novas tecnologias tem intensificado o ritmo de trabalho e as exigências mentais desses profissionais'', explica a médica do trabalho Lys Esther. ''Eles convivem diariamente com o dilema tempo versus qualidade. A pressão é muito grande.''

    HUMANIZAÇÃO

    Segundo Lys Esther, o acordo permitirá que sejam redefinidos prazos para a entrega de sistemas. De acordo com ela, o sindicato das empresas também percebeu que estabelecer cronogramas mais ''humanos'' pode resultar em melhor qualidade. ''Além de melhorar a saúde dos analistas, a empresa terá resultado melhor'', afirma.

    No documento dos analistas, também foram estabelecidas regras para uso de computadores e outros equipamentos no local de trabalho. Entre alguns dos benefícios, estão definidas características para o mobiliário usado e proibidos ruídos que interfiram na concentração. ''É uma vitória para a categoria. Uma vitória da saúde'', diz Dutra, diretor do Sindpd. Ele acredita na possibilidade do acordo trazer benefícios aos analistas de todo o país. ''São Paulo é a cidade mais informatizada do Brasil. Precisa dar exemplo'', afirma.

    Mauro de Luca, diretor do sindicato das empresas descarta a possibilidade do acordo não ser cumprido. ''Todos serão beneficiados'', justifica. ''Nenhuma empresa quer perder um bom profissional, já que demora anos para formá-lo. Será ótimo, se pudermos evitar ausências do trabalho e aposentadorias precoces.''

    A analista de sistemas Conceição não terá oportunidade de aproveitar os benefícios da legislação. Abandonou a profissão há quatro meses. Hoje, é aluna de um curso técnico em radiologia e já fez outro em enfermagem. ''Foram mais de 20 anos dedicados a uma profissão que não me deu prazer. Não passei de um robô'', assinala. ''Agora, quero trabalhar com saúde. Fazer algo positivo para as pessoas.''




    Fonte: http://www.dicas-l.com.br/print/20000828.html

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    MINICOMPUTADORES BRASILEIROS NOS ANOS 1970...

    by linuxdicas (20/11/2007 - 05:51)

    MINICOMPUTADORES BRASILEIROS NOS ANOS 1970...

    Minicomputadores brasileiros nos anos 1970: uma reserva de mercado democrática em meio ao autoritarismo Brazilian minicomputers in the 1970s: a democratic market reserve during the authoritarian dictatorship

    MARQUES, I. C. da: Minicomputadores brasileiros nos anos 1970: uma reserva de mercado democrática em meio ao autoritarismo. História, Ciências, Saúde Manguinhos, vol. 10(2): 657-81, maio-ago. 2003.

    Um novo entendimento do sucesso e do fracasso da assim chamada política de reserva de mercado dos computadores é oferecido chamando atenção para as redes, as rupturas e as interferências sociotécnicas. São utilizados três modelos de liberdade para abordar os princípios de organização política na tradição liberal democrática. E três desenvolvimentos sociotécnicos dos anos 1970 e 1980 se destacam: o caráter especial da comunidade de profissionais brasileiros de informática nos anos 1970; a intervenção da polícia política da ditadura militar; e o aparecimento do microcomputador. A análise derivada da combinação destes elementos coloca em cena uma divisão do período em duas fases. A primeira apresenta uma afinidade, em geral não levada em conta, entre as práticas democráticas liberais e a possibilidade de implementação bem-sucedida de políticas industriais e tecnológicas buscando simultaneamente o desenvolvimento econômico e o das ciências e tecnologias locais no Brasil.

    PALAVRAS-CHAVE: computadores, política industrial, democracia, autoritarismo, comunidade.

    MARQUES, I. C. da: Brazilian mini-computers in the 1970s: a democratic market reserve during the authoritarian dictatorship. História, Ciências, Saúde Manguinhos, vol. 10(2): 657-81, May-Aug. 2003. This article offers readers a new understanding of success and failure of the so-called computer market reserve policy, calling their attention to nets, as well as social and technical interruptions and interference. Three models of freedom have been used in order to approach the principles of political organization within liberal and democratic tradition. Three social and technical developmental models stand out during the 1970s and 1980s: the specific characteristics of Brazilian professionals in computer science in the 1970s, the intervention of political police force during the dictatorship and microcomputers themselves. As the result of the combination of these elements, the present analysis has divided the period into two different phases. The first phase shows a strong relation not always taken into account between liberal democratic practice and the possibility of successful industrial and technological policies that simultaneously sought economic development and science and technology development in Brazil. KEYWORDS: computers, industrial policy, democracy, authoritarianism, community.

    Ivan da Costa Marques Professor da Pós-Graduação em Informática da Universidade Federal do Rio de Janeiro Rua Marquês de Abrantes, 88/307 22230-061Rio de Janeiro RJ Brasil <imarques (a) ufrj br>

    vol. 10(2):657-81, maio-ago. 2003 vol. 10(2):657-81, maio-ago. 2003

    Introdução

    As últimas décadas assistiram à desconstrução das grandes narrativas como alicerces para os ideais iluministas, ditos universais, da modernidade. São os efeitos provisionais dos embates sociotécnicos, isto é, embates indissociavelmente científicos/políticos/tecnológicos/ econômicos/sociais, que decidem a vida contemporânea, em meio aos escombros dos edifícios antes confiáveis e estáveis das ideologias modernas.

    Não surpreende que, neste quadro de coerências desfeitas, a tradição democrática liberal, com a ampla flexibilidade interpretativa de suas doutrinas, tenha se instalado como ponto de passagem obrigatório na avaliação de qualquer proposta de ação pública. Entra em cena o Estado mínimo e vai para os bastidores a idéia de planejamento e de intervenção do Estado na forma de, por exemplo, políticas industriais e tecnológicas. Daí a importância dos estudos dos espaços das condições de possibilidade e dos limites de convivência das doutrinas liberais democráticas com a implementação de políticas públicas dirigidas para objetivos de longo prazo. Estes estudos podem contribuir para a construção de propostas de novas democracias.

    É com este alento que revisito aqui a política de reserva de mercados de computadores no Brasil nas décadas de 1970 e 1980. A história que apresento difere das histórias anteriores, na medida em que encontra e delineia na reserva de mercado um espaço onde experimentos de doutrinas liberais-democráticas e de intervenções propositais no desenvolvimento científico-tecnológico não só coabitaram como também reforçaram-se mutuamente na construção de uma política industrial mais ou menos centralizada. Este espaço estreito de reforço mútuo entre ingredientes de democracia liberal e de planejamento mais ou menos centralizado, orquestrado por ações públicas instrumentais, aparece e desaparece com a entrada em cena dos seguintes elementos da reserva de mercado dos computadores no Brasil: o caráter especial da comunidade de profissionais brasileiros de informática na década 1970; a intervenção do Serviço Nacional de Informações (SNI a polícia política da ditadura) nesta comunidade em 1979; e o advento dos microcomputadores e sua disseminação no Brasil na década de 1980. A imbricação destes elementos heterogêneos problematiza os vínculos entre as reservas dos mercados de mini e microcomputadores, o autoritarismo do regime militar e os ideais do liberalismo democrático.

    O ângulo de inclinação sociotécnica da abordagem que adoto enseja a demarcação de duas fases em que os vínculos entre democracia, computadores e autoritarismo no Brasil diferem radicalmente.[1] A passagem de uma fase à outra acontece na virada da década, 1979-80, pela conjunção dos efeitos do advento dos microcomputadores, acontecimento dito técnico, e da intervenção policial do SNI na política industrial para a fabricação de computadores no país, acontecimento dito social (ou político). Por um lado, a metamorfose do minicomputador, que circulava como um bem de capital, em microcomputador, que adquiriu características de um bem de consumo, não se confinou à esfera estritamente técnica da miniaturização eletrônica, mas fez-se acompanhar de uma reformulação social dos produtores e usuários. Assim o técnico transbordou no social. Por outro lado, a intervenção policial autoritária do SNI não se limitou à esfera estritamente social ou política, gerando também enrijecimento técnico da configuração industrial (máquinas, conhecimentos e práticas) do capital investido dos atores empresariais que naquele momento constituíram uma aliança, mesmo que tácita, com a intervenção autoritária. Assim o social transbordou no técnico. Na ótica sociotécnica, são mudanças nas justaposições de elementos híbridos elementos simultaneamente técnicos e políticos conformando uma rede sem costuras que mudam as condições de possibilidades dos desenvolvimentos, caracterizando as duas fases que vou apresentar. Chamo atenção de que, surpreendentemente, a primeira fase da reserva de mercado dos computadores mostra uma afinidade não explorada entre as formas democráticas e a possibilidade de sucesso de políticas industriais mais ou menos centralizadas para o desenvolvimento das ciências e das tecnologias (e das economias) no Brasil.

    A reserva de mercado

    A adoção, por mais de uma década, de uma reserva de mercado para a fabricação de computadores no Brasil encontra-se sedimentada no imaginário brasileiro como uma experiência fracassada. Treze anos após o seu abandono, em 1990, ainda hoje ouvem-se referências à reserva de mercado como a uma espécie de descaminho estúpido.[2] O acompanhamento mais detalhado dos acontecimentos, feito pelas muitas histórias da política de informática no Brasil, mostra no entanto que, poucos anos antes da sua condenação, a reserva de mercado aparecia como um expediente de sucesso digno e surpreendente. Nesses estudos, são ressaltadas realizações tecnológicas e econômicas da reserva de mercado: no começo da década de 1980, o Brasil foi um dos poucos países em que empresas sob controle local conseguiram suprir uma parte significativa do mercado interno de minicomputadores com marcas e tecnologias próprias. Equipes de engenheiros e técnicos brasileiros haviam absorvido a tecnologia de produtos originalmente licenciados e efetivamente conceberam e projetaram sistemas completos (hardware e software) de minicomputadores e diversos outros artefatos de computação, colocados no mercado por empresas brasileiras com sucesso econômico e técnico. A comparação entre as características técnicas dos sistemas de minicomputadores colocados no mercado pelas empresas brasileiras e as características dos sistemas então oferecidos no mercado internacional indica o quanto as equipes brasileiras se aproximaram daquelas existentes no mundo desenvolvido no início dos anos 1980.[3] A Tabela I é usualmente tomada como uma representação sumária dos resultados econômicos.

    Em suma, as histórias e análises da reserva de mercado, que são muitas, feitas por pesquisadores brasileiros e estrangeiros,[4] reconhecem aquela fase de sucesso. Mas todas deixam entrever a explicação do seu esgotamento e conseqüente abandono em 1990 como um resultado previsível da combinação da oferta ao mercado de produtos tecnicamente defasados a preços altos com a pressão norte-americana para que o Brasil abrisse o mercado dos computadores. Não pretendo diminuir a importância desta combinação, porém, em suas conclusões, esses estudos históricos e análises não chegam a abalar a certeza que muitos têm de que a reserva de mercado se resumiu a uma aliança insólita, formada, dizem, no ranço da ditadura militar, entre setores da esquerda, empresários astuciosos e a direita nacionalista. A reserva de mercado seria hoje, portanto, um desvio no sentido próprio do termo, na medida em que não poderia conduzir a ação pública ao ponto de passagem hoje obrigatório da reconciliação com a tradição democrática liberal.

    Para promover a reconciliação dos mecanismos de reserva de mercado com a tradição democrática liberal, cabe, preliminarmente, focalizar as várias concepções de liberdade como um princípio de construção de ordem política que a tradição democrática liberal pode abrigar. É disto que me ocupo na próxima seção.

    Três modelos de liberdade como um princípio de ordem política na tradição democrática liberal

    Vou destacar esquematicamente três concepções ou modelos principais de liberdade como princípio de construção de ordem política, todos presentes na tradição democrática liberal. Para tanto lançarei mão do excelente estudo de Yaron Ezhavi (1990).

    1. A primeira concepção -- o equilíbrio involuntário em que Adam Smith ([1776] 1937, p. 423) fincou a raiz da ciência econômica sugere que a interação espontânea entre atores livres a serviço de seus próprios interesses pode gerar um sistema equilibrado de ações cujos resultados agregados são publicamente benéficos. Segundo esse modelo, geralmente o ator individual nem pretende promover nem sabe o quanto está promovendo o interesse público. Ao buscar seu próprio interesse ele freqüentemente promove o da sociedade mais eficazmente do que quando tem a intenção de promovêlo. Em formulação do século XX, Friedrich Hayek, autor de grande influência sobre correntes importantes dos economistas brasileiros, diz que a única alternativa à submissão às forças impessoais e aparentemente irracionais do mercado é a submissão ao poder igualmente incontrolável e portanto arbitrário de outros homens.[5] Hayek aceita o conceito democrático-liberal de liberdade como um princípio de criatividade política, mas insiste que se trata de criatividade cega.

       

    2. A segunda concepção de liberdade que habita a tradição democrática liberal parte da hipótese de que a ação é simultaneamente voluntária e informada. A ordem pública é mantida por uma interação esclarecida, isto é, por indivíduos que formam consenso ou geram maiorias em processos de aprendizagem e persuasão racional. As restrições à liberdade são reconhecidas e auto-impostas pelas ações de indivíduos informados. Segundo essa concepção de ajustes reciprocamente informados, em lugar das leis do mercado, é o status normativo de padrões racionais de conduta que impede o comportamento arbitrário, o aspecto destrutivo da liberdade. Essa concepção transitou pelos séculos na tradição democrata liberal nos escritos de Condorcet, John Stuart Mill, John Dewey e Karl Popper.

       

    3. Ainda segundo Ezhavi (1990, p. 21), a terceira concepção, a da justificativa por indicadores, é uma variante centralizada da segunda, presente nos pensamentos de Thomas Hobbes, Alexander Hamilton, Jeremy Bentham e Charles Merrian, entre outros. A ordem é mantida por poucos atores esclarecidos, cujas ações não se tornam arbitrárias ou subjetivas por força de padrões de desempenho adequado, extrapolíticos, ou seja, técnicos, estabelecidos publicamente. Como têm de justificar suas ações perante cidadãos livres, os poucos atores no centro precisam recorrer a indicadores de confiança do público para mostrar que estão buscando o interesse público. A reconciliação dessas estruturas centralizadas de ações com valores políticos democráticos é uma estrutura descentralizada de cobrança de responsabilidade ou prestação de contas ao público.

       

      As três concepções, cada uma a seu modo, permitem enxergar as ações livres como relações estruturadas de causa e efeito e separar, de um lado, a liberdade como um princípio criativo do exercício de práticas democráticas liberais, e, de outro lado, a liberdade como uma fonte de ações arbitrárias. As três variantes permitem que as ações sejam externalizadas como padrões identificáveis ou iluminados contra um fundo indiferenciado ou escuro. O que muda de uma para outra é a perspectiva a partir da qual as ações formam um todo ou uma unidade mais ou menos coerente e estável, e as diferentes implicações políticas dessas diferentes perspectivas.

       

      Ezhavi (1990, pp. 25-6) esclarece a diferença entre as três variantes com uma ilustração hipotética, imaginando os atores como vaga-lumes que deixam suas ações marcadas com uma trajetória iluminada contra um fundo escuro. Na primeira variante, a do equilíbrio involuntário ou de mercado, que concebe a liberdade como ação voluntária de egoístas autônomos, os atores-vaga-lumes não vêem (ou ignoram) seus rastros de luz, mas, ao deixá-los, viabilizam uma visão do olho de Deus do padrão harmonioso da composição de todas as trajetórias sob a regência da mão invisível.

       

      Na segunda variante, que concebe a liberdade como uma interação esclarecida, os atores-vaga-lumes observam as trajetórias iluminadas uns dos outros e adaptam mutuamente seus movimentos para formar um padrão coletivo. A perspectiva aqui é a da visibilidade e da transparência recíproca, que tornam possível a coordenação e a coerência na ação coletiva. Enquanto no caso do equilíbrio involuntário a interação é cega e a luz, uma condição para o conhecimento de quem está fora, no caso de interação esclarecida a luz é um meio de ajuste e cooperação mútua. Em ambas as variantes o Estado liberal tem funções mínimas como guardião e facilitador de interações suaves e polidas.

       

      Na terceira variante da liberdade como princípio de construção política, a ordem é mantida pelas ações tomadas em nome do público por poucos funcionários escolhidos mediante uma justificativa por objetivos. Esta variante combina elementos de ambas as outras, equilíbrio espontâneo tipo mercado e coordenação descentralizada esclarecida. A reivindicação do governo de agir em nome do público se assenta na hipótese de que as preferências dos cidadãos são claras para o governo. O olho de Deus da primeira concepção é substituído aqui pelo olho do Estado, mas o potencial autoritário de tal condição é supostamente cerceado por igual clareza das ações do governo liberal-democrático perante os cidadãos como espectadores. O princípio de transparência recíproca entre cidadãos, principal característica da interação esclarecida, é transformado no terceiro modelo em transparência recíproca entre cidadãos e o governo. Na medida em que a prerrogativa de observar e testemunhar de todos os atores (cidadãos livres) exista e seja descentralizada, a imprescindibilidade da transparência das ações governamentais surge para limitar a centralização do poder (poder observado é poder decaído).

       

      Em cada uma das três variantes da ação pública liberal-democrática (equilíbrio involuntário, interação esclarecida e justificativa por objetivo), uma distribuição diferente da visibilidade ou propriedade de aparecer para o outro pressupõe uma distribuição particular do poder de controlar a ação. O que torna a variante centralizada ainda consistente com os valores democráticos liberais é que, ao contrário do centralismo autoritário-tecnocrático, seu instrumentalismo democrático implica um governo que permaneça visível e portanto exposto aos cidadãos como espectadores que podem questioná-lo em seus próprios termos.

       

      Utilizarei esse esquema de três concepções ideais para analisar o espaço de reconciliação da reserva de mercado com a tradição democrática liberal. A primeira concepção, tomada em sua idealidade, não é conciliável com uma política de reserva de mercado ou, mais precisamente, com uma ação pública instrumental do tipo que será caracterizado aqui como o daquela que resultou na reserva de mercado . Mas vou argumentar que as outras duas, ideal e praticamente, o são.

    A construção de ação voluntária e informada

    Negociação e convergência de visões e de interesses diversos

    Na primeira metade da década de 1970, professores, alunos de pósgraduação e pesquisadores projetaram diversos produtos de informática nas universidades brasileiras: modems, terminais de vídeo, terminais inteligentes (precursores dos microcomputadores de hoje), processadores dedicados, compiladores, protocolos de comunicação. Nessa mesma época alguns birôs estatais de processamento de dados especialmente o Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) investiram em laboratórios de desenvolvimento de produtos. Da mesma forma, nos laboratórios de organizações militares especialmente o Instituto de Pesquisas da Marinha (IpqM) artefatos de informática recebiam atenção especial. Também em meados da década de 1970, a ditadura militar fez circular o conceito de democracia relativa com o intuito de tentar domesticar as formas democráticas em lugar de procurar simplesmente eliminá-las. A democracia relativa significava a ampliação dos espaços onde se podia falar, escrever e agir, em termos de pessoas e temas permitidos, sem contudo admitir todo e qualquer tema.

    Foi no estreito e precário espaço da democracia relativa que indivíduos oriundos de três categorias distintas de profissionais de computação relacionaram-se e, voluntária e informadamente, negociaram suas atuações, formando pouco a pouco uma comunidade que se aglutinou por meio de seminários e congressos realizados periodicamente (SECOMUs e SECOPs)[6] e de uma imprensa especializada (o jornal quinzenal Datanews e a revista bimestral Dados e Idéias). Essas três categorias de profissionais de computação eram, grosso modo, os professores universitários, os oficiais militares engenheiros, e os administradores de empresas estatais. Durante os anos 1970, esses grupos díspares de profissionais, tendo pontos de partida diferentes mas interagindo em congressos e seminários e por intermédio de artigos na imprensa especializada, gradativamente passaram a ver que, pelo menos em parte, suas percepções e análises das questões tecnológicas coincidiam em muitos pontos. O levantamento da coleção da revista Dados e Idéias mostra que, de agosto de 1975 a maio de 1979, lá escreveram e participaram dos SECOMUs e SECOPs profissionais de informática das mais diversas opções políticas e vinculações institucionais, incluindo um grupo pouco numeroso de oficiais militares da ativa dentre um número bem maior de administradores, quase todos das empresas estatais de processamento de dados e das empresas estatais de comunicações, além da maioria composta por professores universitários. Esses profissionais escreveram artigos cobrindo uma gama ampla de aspectos e interesses: comparações com o que outros países vinham fazendo a respeito de política de informática; uso e produção dos computadores, desde a (falta de) mecânica fina no país até problemas éticos relativos ao projeto do número único para cada cidadão; tendências vigentes no desenvolvimento do software básico e de aplicativos etc. A revista apresenta também freqüentes entrevistas com funcionários públicos que ocupavam cargos cujo desempenho a comunidade relacionava direta ou indiretamente com a informática, abrangendo questões que variavam desde os controles de importação e exportação até os problemas de educação e de currículos dos cursos, fazendo da revista um ponto de encontro de observações do poder do governo.

    Havia uma grande diversidade de interesses e abordagens, mas praticamente todas as intervenções, fossem elas nos congressos ou nos periódicos, compartilhavam a idéia de que dominar a tecnologia dos computadores era uma questão estratégica para um país como o Brasil. Os profissionais de informática estavam bem posicionados para criar e expandir seus vínculos com a oportunidade que a democracia relativa oferecia para que discutissem suas atuações profissionais em termos sociais e políticos mais abrangentes. Para aquelas três identidades de profissionais de informática professores universitários, administradores públicos, militares técnicos , soluções mais apropriadas e mais econômicas do que aquelas restritas à programação das máquinas estrangeiras poderiam ser desenvolvidas localmente levando em consideração as especificidades dos serviços que eram executados no Brasil. O bem conhecido esforço de projetar um sistema de minicomputador completo no Brasil executado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e pela Universidade de São Paulo (USP), e consubstanciado no projeto G-10, que integrava os interesses das duas universidades e da Marinha estimulou o governo a financiar várias outras iniciativas locais de concepção e projeto de artefatos de computação. Foi o caso, por exemplo, do processador de ponto flutuante desenvolvido pelo Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ para ser acoplado aos computadores IBM 1130 instalados no Brasil, aumentando-lhes a capacidade de executar operações aritméticas típicas de suas aplicações e assim adiando a necessidade de sua substituição por outros novos modelos importados. Foi o caso, também, do concentrador de teclados, um sistema mais econômico e mais simples do que as soluções oferecidas pelas multinacionais, por não ter terminais de vídeo e utilizar um único disco, mas igualmente eficiente, para a transcrição das declarações de renda pelo método digita-e-redigita-para-conferir que era a prática do SERPRO.[7]

    Na década de 1970, o desenvolvimento local da tecnologia de computadores possibilitou o encontro de visões, interesses e identidades profissionais diversas. Os professores dos recém-constituídos cursos de pós-graduação em engenharia [8] estavam preocupados em criar um mercado de trabalho qualificado para os profissionais que formavam. Para eles, suas qualificações deveriam ser legitimadas por uma demanda no mercado de trabalho brasileiro por profissionais capazes de conceber e projetar computadores. Os militares julgavam importante saberem abrir as caixas-pretas eletrônicas instaladas em seus armamentos, especialmente depois que uma nova geração de fragatas com computadores a bordo foi adquirida da Inglaterra, tornando mais evidente a dependência de técnicos estrangeiros. Os administradores das empresas estatais entendiam que o leque de soluções possíveis para uma determinada aplicação se abriria muito mais se houvesse no país a capacidade de projetar também o hardware e o chamado software básico, mesmo que de pequenos artefatos computacionais.

    Interação esclarecida para a construção de uma proposta de adaptação mútua e formação de um padrão normativo racional

    Os protótipos ou produtos desenvolvidos na pesquisa não tinham sido inventados aqui. Eram, no entanto, engenharia reversa, feita por brasileiros, do que havia de mais atualizado na época em matéria de equipamentos que podiam ser adquiridos no mercado internacional. O trabalho de pesquisa empírica nas universidades e centros de pesquisa consistia justamente em aprender a fabricar aqueles misteriosos produtos, de tal forma que grupos de profissionais brasileiros adquirissem a capacidade de projetá-los. Nessa concepção de pesquisa, que situa a fronteira do conhecimento como uma fronteira local, os pesquisadores brasileiros descobriram como conceber e projetar produtos e também como ligar equipamentos de fabricantes diferentes para formar um único sistema. Disseminou-se pela comunidade acadêmica a preocupação com a dependência tecnológica: se passasse a depender cada vez mais de computadores e não soubesse fazê-los, o Brasil se veria na contingência de pagar o preço fixado pelos poucos países que sabiam como fazer os computadores. A partir de uma comunidade que praticamente não incluía empresários, a idéia de que o Brasil deveria fazer um investimento estratégico para superar a dependência tecnológica disseminou-se e tornou-se predominante entre os profissionais brasileiros de informática da década de 1970. Estava formado um consenso: nas palavras de um profissional de então, se na época inicial desses esforços (de desenvolvimento local de tecnologia de computadores), a industrialização e a comercialização efetiva do que fosse produzido eram ao mesmo tempo esperança e promessa, hoje se está cobrando uma decisão urgente e definitiva de que dependerá o êxito ou fracasso de dez anos de política científica e tecnológica para o setor (Franken, 1976). A partir de meados da década de 1970, um número cada vez maior de profissionais de informática passou a ser de opinião de que os esforços para que profissionais brasileiros participassem da concepção e projeto de uma tecnologia de minicomputadores não poderiam ter continuidade sem o envolvimento de empresas privadas.[9]

    Os artigos da revista Dados e Idéias e as edições do jornal Datanews mostram o encadeamento lógico dos argumentos que circulavam na comunidade: 1) sem que um produto tecnológico seja produzido, vendido e mantido não se completa o ciclo do produto e não se pode ter segurança de que se detém a sua tecnologia e claramente as universidades e entidades estatais que até então vinham se envolvendo com a concepção e o projeto de produtos não tinham condições de completar o ciclo dos produtos; 2) não existiam empresas fabricantes brasileiras [10] e as empresas estrangeiras que tinham fábricas instaladas aqui (IBM, Burroughs e Olivetti) não dispunham de estrutura local de concepção e projeto de produtos nem estavam em princípio dispostas a montá-las dado que tradicionalmente recebiam os projetos de seus produtos já prontos, desenvolvidos nos laboratórios nas matrizes; 3) além disso, havia uma necessidade de cunho mais estritamente econômico que exigia a fundação de empresas com capacidade técnica própria local: o Estado brasileiro não teria condições de continuar acompanhando as necessidades financeiras crescentes dos trabalhos de pesquisa a fundo perdido, como vinha fazendo. Já havia sido atingido o ponto em que os recursos para concepção e projeto local de produtos teriam que vir, pelo menos em parte, diretamente do mercado usuário, e as empresas eram as instituições-organizações consagradas para desempenhar essa função. E, finalmente, o x da questão: 4) se, por um lado, o capital estrangeiro não se interessava pelo investimento em concepção e projeto de minicomputadores no Brasil, por outro lado, o capital privado nacional não se interessava em investir em empresas fabricantes de minicomputadores aqui, pois entendia que, em regime chamado de livre concorrência, a competição estava perdida a priori para as empresas estrangeiras.

    Os anais dos SECOMUs, SECOPs e congressos da SUCESU, e os artigos publicados na revista Dados e Idéias e no jornal Datanews, mostram que, em 1976-77, uma conclusão lógica a partir dos argumentos mencionados se impunha praticamente como um consenso entre a comunidade de profissionais de informática: era preciso introduzir um artifício no jogo do mercado para que o investimento em concepção e projeto local de minicomputadores no Brasil se tornasse mais atraente para o capital privado nacional. Nos termos da tradição democrática liberal, um conjunto pequeno mas heterogêneo de atores professores, administradores de empresas estatais, militares técnicos dera início a um processo de interação esclarecida para construção de uma proposta de adaptação mútua e formação de um padrão normativo racional de conduta que cerceasse a liberdade como fonte de comportamento arbitrário, que na época passou a ser associado à importação arbitrária d e tecnologia, isto é, a importação de tecnologia decidida individualmente por cada empresa fabricante.

    Entre o olho de Deus e o olho do Estado

    Uma reserva (de mercado) para empresas que realizassem a pesquisa e o desenvolvimento de seus produtos no Brasil acabou sendo construída como um artifício acoplado ao mecanismo de mercado para que o investimento em concepção e projeto local de minicomputadores no Brasil se tornasse mais atraente para o capital privado.

    Ancorado na comunidade de profissionais de informática, o órgão da Secretaria de Planejamento da Presidência da República (SEPLAN, atual Ministério do Planejamento) encarregado de racionalizar o uso dos computadores no âmbito do governo federal, denominado Coordenação das Atividades de Processamento Eletrônico de Dados (CAPRE), fez publicar no Diário Oficial da União, em 15 de julho de 1976, sua Resolução 1 anunciando que a política nacional de informática para os minicomputadores buscaria a consolidação de um parque industrial com total domínio, controle da tecnologia e decisão no país.[11] A esta resolução seguiu-se, em 1977, uma concorrência internacional para selecionar as empresas que poderiam fabricar e comercializar sistemas de minicomputadores no Brasil. Só as vencedoras poderiam entrar no mercado brasileiro de minicomputadores. Um critério anunciado na seleção das candidatas era o compromisso com pesquisa e desenvolvimento local de produtos e o correspondente plano de investimento da empresa (Helena, 1977). Resumindo rudemente um processo político-tecnológico cujos detalhes Vera Dantas (1988) registra com fluência e riqueza e que não se desenrolou sem combates, o principal deles envolvendo o minicomputador IBM/32 , foi com a recomendação da comunidade de profissionais que a CAPRE buscou um artifício o que veio a ser chamado uma reserva de mercado que tornasse atraente o investimento em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Foram vencedoras as empresas Edisa, Labo e SID.[12] O artifício mostrou-se eficaz para atrair o capital nacional, mobilizando-o para constituir empresas que assumiram o compromisso de investir em pesquisa e desenvolvimento de produtos no Brasil em troca de não enfrentarem a concorrência com produtos de concepção e projeto estrangeiros que seriam meramente montados aqui. A Tabela II ilustra a mobilização do capital nacional pelo crescimento do número de aberturas de empresas no setor após a Resolução 1 da CAPRE, uma vez que a quase totalidade das novas empresas era de capital nacional. Daí resultou a implantação da reserva de mercado para minicomputadores em 1977 e naquela ocasião, convém frisar, ainda não existiam microcomputadores. É i m p o r t a n t e observar que, embora a resolução incluísse microcomputadores, esta palavra referia-se ao pequeno mercado, classificado na categoria outros, de sistemas com processadores integrados dedicados, não dizendo respeito propriamente aos micros tais como os entendemos hoje estes surgiram depois, a partir de 1981, nas estatísticas da SEI e, rapidamente, isto é, em 1985, suplantaram os minis em termos de vendas ao mercado, conforme indica a Tabela III.

    A política de reserva de mercado para o desenvolvimento da tecnologia de minicomputadores foi concebida naquela comunidade sui generis que nos 1970 reuniu um espectro mais ou menos amplo de p r o f i s s i o n a i s especializados em computação originários das universidades, das forças armadas e das empresas estatais de processamento de dados. Com o advento da democracia relativa, juntaram-se à comunidade jornalistas especializados, empresários, políticos e alguns líderes de associações profissionais. Pode-se conjeturar se a comunidade de profissionais de informática não começava a esbarrar nos limites da redoma da relatividade democrática, pois ela configurou, embora instável e fracamente, o que chamo de um coletivo técnica e politicamente agenciador, que poderia tender a se expandir, conferindo uma nova inflexão às tentativas de desenvolver tecnologia no Brasil. Durante os anos 1970 o caráter e a dinâmica da reserva de mercado dependeram das atuações dessa comunidade sui generis de profissionais brasileiros de informática.[13]

    As atuações desse coletivo técnica e politicamente agenciador podem ser compreendidas em dois eixos. No eixo horizontal, esse grupo legitimava e propagava para a sociedade em geral a idéia da reserva de mercado dos minicomputadores. Os projetos de pesquisa discutidos e levados a cabo nas universidades, nas organizações militares e nas empresas estatais articulavam conceitos que o público em geral considerava (e ainda hoje considera) disjuntos, como, por exemplo, dependência tecnológica e ausência relativa de demanda por trabalho tecnicamente qualificado na indústria brasileira. No seio da comunidade articulações desse tipo, ligando maior autonomia tecnológica a aumento de oportunidades de trabalho mais valioso, legitimavam a idéia de reserva de mercado, facilitando sua disseminação. A comunidade tornava-se assim uma fonte de suporte político amplo e horizontal, que vinha de baixo, renovado por discussões vivas disseminadas e descentralizadas entre os profissionais, para que o governo brasileiro lançasse mão da reserva de mercado de minicomputadores como um expediente para diminuir a dependência tecnológica do Brasil. De acordo com o interesse de cada um, diminuir a dependência tecnológica do Brasil podia ser traduzido como gerar mais oportunidade de trabalho qualificado para brasileiros (professores), poder abrir as caixas-pretas instaladas nos navios de guerra (militares) ou processar mais eficientemente o imposto de renda (administradores públicos).

    Por outro lado, no eixo vertical, aquele coletivo ou comunidade sui generis de profissionais de informática representava uma espécie de inteligência descentralizada que acompanhava e discutia a atuação do governo na implementação da reserva de mercado, avaliando continuamente sua adequação aos objetivos que a legitimavam. Em outras palavras, como bem mostram as coleções da revista Dados e Idéias e do jornal Datanews de 1975 a 1980, era também a comunidade q u e fazia a crítica da política de reserva de mercado de minicomputadores, discutindo sua implementação, criando focos a partir dos quais eram distribuídos o apoio ao que era visto como acerto e a oposição ao que era visto como erro, na rota para o objetivo mais ou menos consensual de diminuir a dependência tecnológica na concepção, projeto e fabricação dos minicomputadores.

    Em plena ditadura, sob um manto de duas camadas, democracia relativa e alta tecnologia, a comunidade dos profissionais de informática nos anos 1970 tinha adquirido ainda que timidamente, como dito anteriormente, o caráter de um coletivo técnica e politicamente agenciador capaz de participar e interferir na política nacional e nos decretos governamentais. Nos termos da tradição democrática liberal, esse grupo havia rejeitado a crença de que, diante do olho de Deus, surgiria um comportamento harmonioso e frutífero para a sociedade brasileira naturalmente ajustado unicamente pela mão invisível do mercado, para abraçar a crença, igualmente moderna, na possibilidade de construir um olho do Estado que dirigiria a mão do Estado ajustando os comportamentos sociais e coibindo a liberdade arbitrária. Os profissionais de informática nos anos 1970 propuseram que no Brasil a questão tecnológica fosse tratada a partir da prática política que Yaron Ezhavi argumenta que preponderou nos Estados Unidos durante o século XIX e até meados do século XX, o instrumentalismo democrático.

    Do instrumentalismo democrático relativo ao centralismo autoritário-tecnocrático

    Mas como bem observou Sérgio Buarque de Holanda ([1982] 1936, p. 5) (no Brasil) os decretos dos governos nasceram ... só raras vezes da pretensão de se associarem permanentemente as forças ativas (da sociedade). No final dos anos 1970, sopesados os avanços e os retrocessos da democracia relativa, embora a evolução política geral apontasse para a democratização do país, as liberdades civis não estavam asseguradas. Até 1985 todos os órgãos governamentais eram obrigados a submeter suas contratações ao crivo do SNI, uma espécie de polícia política congregando militares e civis que se autodenomivam uma comunidade de informações e que pretendiam vigiar e punir todos que não repudiassem o que eles entendiam como ideologias de esquerda. Como o SNI trabalhava baseado em informes confidenciais isto é, o cidadão comum não tinha acesso à sua própria ficha a arbitrariedade e o autoritarismo ali concentravam-se especialmente. Em 1979 foi colocado na chefia da ditadura militar o general João Baptista de Figueiredo, até então chefe do SNI.

    A partir de março de 1977, uma equipe contratada pelo Itamaraty pretendeu desenvolver em sigilo, sob a rede de proteção do SNI, um sistema de criptografia para troca de mensagens entre as embaixadas brasileiras, denominado Projeto Prólogo. O projeto tornou-se uma obscura zona de contato entre a comunidade de informações do SNI e os profissionais de informática. Não surpreende que o SNI julgasse estranho aquele coletivo sui generis, técnica e politicamente agenciador, cada vez mais heterogêneo, que reunia professores, militares e funcionários públicos discutindo política tecnológica (e econômica), elaborando sugestões e acompanhando suas implementações pelo governo ditatorial, fazendo, às vezes, críticas, embora relativas.

    A chegada dos coronéis

    Tão logo seu antigo chefe foi indicado para comandar a nação, a comunidade de informações do SNI formou a Comissão Cotrim, com a finalidade de investigar o setor de informática. Essa comissão, conhecida pelo nome do embaixador informante que dela fez parte, foi integrada por coronéis do SNI [14] e outros informantes que gravitavam em torno do serviço de informações, alimentando-o com seus informes confidenciais. Nas palavras de Dantas (1988, pp. 181-2),

    (p)ara preparar a intervenção, o general Otávio Aguiar de Medeiros[15] decidiu formar uma comissão que fizesse um levantamento do setor de informática e propusesse um plano de ação destinado ao futuro governo de seu chefe, general Figueiredo. ... Obtida a autorização do general Figueiredo, formou-se a comissão com Cotrim, Dytz, Joubert, Loyola e Cuinhas. ... Para cobrir suas despesas ... Cotrim pensou primeiro em obter o dinheiro no BNDE ... mas Marcos Vianna (então presidente do BNDE) impôs condições ... Cotrim recorreu ao CNPq. A reação de (José) Dion (então presidente do CNPq) foi exatamente oposta à de Marcos Vianna: não precisou de muita conversa para entender que o embaixador (Cotrim) buscava, além de dinheiro, uma aliança.

     

    Certamente aqui também podemos nos lembrar das observações de Sérgio Buarque de Holanda ([1936] 1982, pp. 3-11) sobre o personalismo exagerado (dos brasileiros) e suas conseqüências. À época, na comunidade de informática, era conhecida a simpatia entre Marcos Vianna e Ricardo Saur, secretário-executivo da CAPRE e notório desafeto de José Dion. A Comissão Cotrim teve como alvo principal os professores universitários e os funcionários da CAPRE que vinham até então implementando a política de reserva de mercado.

    A comissão incluiu entre seus suspeitos os funcionários de outras organizações estatais não universitárias, como o SERPRO, a Digibrás e ainda outras dentro das próprias forças armadas, como o Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA). Segundo Dantas (1988, p. 183), (o)s membros da Comissão Cotrim preferiram convocar para depoimentos em Brasília todas as pessoas que julgassem necessárias. Começaram pelos pesquisadores e professores universitários. A Comissão Cotrim trabalhou durante alguns meses usando métodos e práticas policiais cuja falta de legalidade não constrangia seus coronéis. Tratou como suspeitos de crimes políticos os professores universitários, os gerentes de estatais e os próprios militares que compunham a comunidade de profissionais de informática evocada nos seminários e congressos e também nos artigos, declarações e discussões públicas da revista Dados e Idéias e do jornal Datanews. Sem constrangimento, os coronéis do SNI interrogaram de forma intimidante um grande número dos profissionais de informática e grampearam seus telefones.[16] E, logo, instalou-se entre estes um tal clima de medo que aos mais irônicos inspirou até brincadeiras de autêntico humor negro.

    A partir daí, como resultado dessa ação repressiva, a participação dos profissionais de informática se arrefeceu. O levantamento da coleção da revista Dados e Idéias confirma tanto a transformação de enfoque quanto a mudança dos autores colaboradores após a interrupção de sua publicação de junho de 1979 a janeiro de 1980. Também nos seminários e congressos o ambiente era outro, tendo desaparecido as condições que davam vida às discussões acerca de como deveria ser uma política diferenciada para a construção de uma indústria de computadores no Brasil. Os seminários e congressos, bem como os artigos da revista, passaram a se restringir aos assuntos considerados estritamente técnicos. Compreende-se a facilidade com que os coronéis do SNI desfizeram a comunidade de profissionais de informática como um coletivo técnica e politicamente agenciador, bastando lembrar que naquela época eles podiam agir impunemente acima de quaisquer garantias civis.

    Além disso, apresentada em relatório secreto ao general Figueiredo, a conclusão da Comissão Cotrim surpreendeu parte da já desmobilizada comunidade de profissionais de informática. O relatório concluía que o Brasil na realidade não possuía uma política de informática, tão tímida ela era ... deixando de lado as questões do software e da microeletrônica, o coração dos computadores.

    Alguns enxergaram tal conclusão como uma vitória para as idéias até pouco meses antes defendidas na comunidade de profissionais de informática, um tanto docemente constrangidos pela sensação de terem conquistado, mesmo à revelia, novos e poderosos aliados no aparato repressivo da ditadura.[17] Os coronéis do SNI propunham a substituição da pequena e, dentro do governo ditatorial, sempre um tanto deslocada CAPRE por um novo órgão de alto nível hierárquico, com status de ministério, ligado diretamente ao general Figueiredo. Tal órgão, denominado Secretaria Especial de Informática (SEI), foi prontamente criado e seus cargos de direção ocupados pelos próprios coronéis do SNI que haviam integrado a Comissão Cotrim, a qual, em regime de substituição sucessiva por subalternos, lá permaneceu até sua aplaudida extinção em 1990.[18]

    A chegada dos microcomputadores

    No tempo em que só havia computadores de grande porte (mainframes), o mercado de computadores era um segmento muito especializado do mercado de bens de capital, e ao redor dele circulavam relativamente poucas pessoas. No Brasil eram ao todo poucos milhares de profissionais, mais propriamente algumas centenas. Para a imensa maioria das pessoas comuns, dos leigos, os computadores (de grande porte) eram máquinas esotéricas, cérebros eletrônicos mantidos em aquários refrigerados.

    Hoje talvez as ovelhas clonadas em Edimburgo coloquem-se mais próximas da vida diária dos leigos do que na década de 1960 os mainframes conseguiam se aproximar da rotina cotidiana dos homens comuns.

    Os minicomputadores, sistemas menores do que os mainframes, que proliferaram por cerca de uma década a partir do começo dos anos 1970, mantiveram as características básicas de um mercado especializado. É verdade que os minicomputadores aumentaram significativamente a diversidade de produtos, de fornecedores e de compradores, pois estão associados ao crescimento do mercado OEM e ao desenvolvimento dos VAR nos Estados Unidos.[19] Entretanto, se pensarmos em como eram tomadas as decisões de compra e venda, e nas condições de utilização e de manutenção dos minicomputadores, enxergamos ainda nitidamente uma continuidade mercadológica na produção e na comercialização entre eles e os computadores de grande porte: os minicomputadores ainda eram típicos bens de capital. Embora de preços e complexidades industriais de dez a cem vezes menores, os prazos de entrega, as condições de manutenção e os preços dos minicomputadores, que estavam nas casas das dezenas de milhares de dólares, eram sempre negociados entre vendedores e compradores especializados.

    Já o microcomputador, como artefato, foi adiante do minicomputador e deixou definitivamente para trás os limites do ambiente decisório formal dos (CPDs), centros de processamento de dados, característico do tratamento por especialistas que se dá, ainda hoje, às aquisições de bens de capital pelas organizações grandes e médias. O microcomputador ocasionou a ruptura desses limites do computador como um bem de capital típico, dotando o artefato computador de características próximas às de um bem de consumo durável, um eletrodoméstico ou um telefone, ambicionado potencialmente por qualquer indivíduo. Como vimos, o fenômeno já aparece nas estatísticas feitas pela própria SEI (Tabela III), a partir das vendas do setor no Brasil correspondentes ao ano de 1981, e torna-se avassalador a partir do (IBM/)PC com a padronização de que se fez acompanhar tanto na arquitetura como no software. As técnicas de miniaturização tornaram possível disponibilizar em cima de uma mesa recursos para processar informação que antes não podiam ser mobilizados mesmo em máquinas que ocupavam salas inteiras. Os aumentos exponenciais da velocidade de processamento e da capacidade das memórias abriram possibilidades de concretizar aplicações antes somente imaginadas, como a substituição das máquinas de escrever, disseminando o computador de uma forma que poucos anos antes seria considerada ficção. O efeito da possibilidade de cada indivíduo dispor do computador como uma extensão de si próprio, e do seu próprio corpo, já descortinada pelo PC, provocou uma mudança de estrutura de mercado muito mais radical do que a mudança antes trazida pelos minicomputadores.

    O microcomputador rompeu os limites restritos de um mercado de bem de capital especializado e provocou uma rápida mudança de toda a estrutura do setor no que se refere a qualificações de engenharia, industriais, comerciais e financeiras dos fornecedores e compradores. Por um lado, os custos e preços caíram mais uma ordem de grandeza, e a capacidade de processamento e a escala de produção subiram várias ordens de grandeza. Por outro lado, o micro passou a integrar o rol dos objetos de uso doméstico e pessoal ambicionados pelo leigo. No começo dos anos 1980, o computador saiu de um mundo fechado de milhares de profissionais para um universo aberto de milhões de leigos diretamente interessados e envolvidos.

    A perda da transparência e a dispensa de prestar contas à sociedade passam do SNI para a política de informática

    Esperava-se que o microcomputador, como fenômeno novo, exigisse mudança e renegociação da política que havia sido gestada na comunidade de profissionais de informática e posta em prática pela C A P R E . Mas, ao contrário da reserva de mercado para minicomputadores, que foi precedida de vários anos de discussões p ú b l i c a s em uma comunidade, a reserva de mercado para microcomputadores foi adotada sem discussão. Como integrantes do órgão de repressão de um regime ditatorial, os coronéis instalados na SEI não se julgavam responsáveis por apresentar a visão do olho do Estado com maior clareza, precisão e transparência possíveis para os cidadãos em geral e para os profissionais de informática em particular, nem tampouco julgavam-se obrigados a prestar contas e justificar, também com o máximo de transparência, o que fazia a mão do Estado, isto é, suas próprias ações, táticas e estratégias. O fenômeno microcomputador não existia e não havia sido considerado anos antes, quando os procedimentos para a operação da reserva de mercado de minicomputadores foram concebidos e discutidos na comunidade e postos em prática pela CAPRE, ao longo da década de 1970. Os coronéis do SNI, recém-instalados em seus novos altos cargos públicos na SEI, formalmente extinguiram e criaram órgãos e cargos, mas explicitamente não criaram uma política nova nem reformularam aquela recebida da CAPRE.

    É justamente a ausência de transparência, a falta de obrigatoriedade de prestar contas e a inexistência de uma configuração descentralizada de cobrança que transformam o instrumentalismo democrático em centralismo autoritário-tecnocrático irreconciliável com a tradição democrática liberal. Desmobilizada a comunidade que configurava a cobrança descentralizada, e sendo ausente de seu ethos a obrigação da transparência e da prestação de contas à sociedade, os coronéis do SNI, em movimento típico de centralismo autoritário-tecnocrático, sem c o n s u l t a e sem explicação, estenderam para o mercado de microcomputadores os mesmos procedimentos que vinham sendo adotados com sucesso para incentivar a concepção, o projeto e a fabricação de minicomputadores no Brasil.

    Conclusão

    Nos anos 1980 os microcomputadores chegaram ao Brasil formando um segmento de mercado, antes inexistente, que começou a crescer a taxas muito altas abaixo da área reservada (eram sistemas completos menores do que os minicomputadores). Os sinais da grande mudança apareceram com a proliferação dos micros de oito bits utilizando o sistema operacional CP/M. Após o lançamento do (IBM/)PC podia-se perceber que a área reservada (mini) logo ficaria, como efetivamente ficou, comprimida entre o grande mercado anterior (grande porte, midi e pequeno) e o mercado de crescimento explosivo que surgira (micro). Ou seja, o aparecimento do microcomputador mudou uma estrutura de mercado até então estavelmente configurada.

    No início da década de 1980 empresas e tecnologias brasileiras haviam ocupado o mercado de minis, sendo que as primeiras vinham cumprindo os compromissos, assumidos em 1977, de investir na formação de equipes técnicas. Nesses anos, Cobra, Edisa, Labo, Sid e Sisco apresentaram ao mercado e, com sucesso, venderam melhoramentos e upgrades dos modelos licenciados e novos modelos já inteiramente desenvolvidos pelas equipes brasileiras. Em cinco anos tornaram-se efetivamente independentes das suas fontes originais de tecnologia. Mas o mercado de microcomputadores, como mostra a Tabela III, logo interferiu fortemente no mercado de minis (e depois também nos de portes maiores), apresentando outra estrutura de produção e comercialização. Os microcomputadores requeriam organizações industriais e comerciais diferentes das dos minicomputadores, mais apropriadas a uma tecnologia muito mais padronizada que fazia com que diferenciais de custo e de preço, por exemplo, adquirissem uma importância muito maior, o que, por sua vez, requeria a revisão de uma série de decisões relativas à política da reserva de mercado como, por exemplo, que partes desenvolver e fabricar no Brasil e que partes importar. O primeiro problema estratégico enfrentado pela SEI foi decidir que reformulação deveria ser dada à política de reserva de mercado face às mudanças estruturais trazidas pelo emergente mercado de microcomputadores no começo dos anos 1980.

    No entanto, embora tivessem escrito no relatório da Comissão Cotrim que consideravam a política anterior como inexistente ... de tão tímida (que era), os coronéis do SNI limitaram-se a dar continuidade a muitos (embora não a todos) procedimentos que vinham sendo adotados pela CAPRE. Os funcionários da CAPRE e da Digibrás forneceram tais procedimentos na forma de manuais de operação aos integrantes da Comissão Cotrim. Em outras palavras, os coronéis do SNI ocuparam a SEI de posse de manuais que sintetizavam detalhadamente os procedimentos (como delimitar segmentos de mercado, como realizar concorrências para a ocupação de segmentos de mercado, como especificar os investimentos de contrapartida pela entrada em segmentos reservados) para construir no Brasil uma indústria de minis, e não necessariamente de microcomputadores, a partir de uma reserva de mercado. A postura de aplicar sem discussão à industria deste novo objeto sociotécnico o microcomputador vinculado a um novo conjunto de empresas fabricantes e um universo aberto de milhões de potenciais compradores leigos os mesmos procedimentos de reserva de merca

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    Usando o NetCAT

    by linuxdicas (20/11/2007 - 04:49)

    Usando o NetCAT

    Colaboração: André Jaccon

    O NetCat é um utilitário que lê e escreve através de conexões de rede usando protocolos TCP e UDP.

    Considerações Iniciais:

    Plataforma usada

    • Debian 3.0 (Woody) / Kernel 2.4.30
    • NetCat "NC" - 1.20-27

    O NetCat pode ser instalado através da ferramenta Apt-Get no Debian usando o Mirror:

     deb http://mirrors.kernel.org/debian/ testing main deb-src http://mirrors.kernel.org/debian/ testing main 

     

    Após adicionar os mirrors em seu /etc/apt/sources.list atualize o bd do Apt e instale o NC com os comandos abaixo:

     # apt-get update ; apt-get install netcat 

     

    Exemplos de uso do NetCat:

    1. Com o NetCat você poderá testar se suas configurações do servidor de SMTP estão disponibilizando Relay's adequadamente ou não, veja o exemplo abaixo:

       

       # netcat proveedor.internet.es 25 helo holahola mail from:<nobody@linux.org> rcpt to:<mailteste@seuservidor.com> 250 Recipient <destinatario@maquina.com> Ok data 354 Ok Send data ending with <CRLF>.<CRLF> Subject: prova X-Mailer: by-hand cutremail X'-D . 

       

      Caso a mensagem com código 354 apareça isso quer dizer que seu servidor está possibilitando Relay indevidamente, para finalizar tecle "." para fechar a conexão com o servidor.

       

    2. Visualizando e-mails através do protocol POP O NetCat é uma ótima ferramenta para executar teste de recebimento de e-mail's sem a necessidade de um software de e-mail cliente, veja o exemplo abaixo:

       

       # netcat seuservidor 110 +OK Bem vindo ao servidor POP3 de MailServer user sincronicx +OK password required for user carcoco pass delpassword list 1 2451 2 123433 3 323 dele 2 quit +OK goodbye 
      Com o exemplo de comando acima conectamos em seuservidor através da porta 110 POP, e entramos com usuário e senha para listar os 3 e-mail que estavam na caixa, logo após com o comando "dele 2" deletamos o e-mail de número 2 no Inbox. para finalizar saimos do servidor com o comando "quit"

       

    3. Verificar informações sobre o servidor web de um determinando provedor

       

       # netcat www.linux.org 80 get . / 

       

    4. Criar um sistema de comunicação Shell entre máquina remotas Para criar um sistema de comunicação equivalente ao comando wall use o comando na máquina 1:

       

       # nc -l -p 12345 

       

      onde a flag -p é a porta de comunicação que abriremos em nossa máquina 1.

       

      Na máquina 2 entre com o comando:

       

       # netcat ip-ou-nome-de-maquina1 12345 

       

      Com isso será aberta um canal de comunicação através da porta 12345 no qual você poderá usar para mensagens instantaneas ou ainda transferência de arquivas.

       

    5. Transferir arquivos entre máquinas:

       

      Digamos que você precisa transferir um arquivo entre uma máquina e outra porém você não possui nenhum serviço client/servidor disponivél para transferência entre as máquinas, você pode usar o NC para transferir estes arquivos exemplo:

       

      Digamos que a máquina 1 possui o arquivo teste.txt no qual deverá transferir para a máquina 2, para isso use o comando na máquina 1:

       

       # netcat -l -p 4000 < teste.txt 

       

      Na máquina 2 entre com o comando:

       

       # netcat maquina1 4000 > teste.txt 

       

      Ao final da transferência tecle CTRL+D para finalizar.

       

      verifique o diretório corrente.

       

      Estas foram algumas das muitas funções possiveis com o NC, para saber mais sobre o NetCat consulte os Man Pages ou Info.



    Fonte: http://www.dicas-l.com.br/print/20051123.html

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